Sábado, 07 de Março de 2026

Libertadores de quem ?


Publicada em 19/12/2025 às 17:02 - Atualizada em 19/12/2025 17:09



Por Saulo Oliveira em Vivendo e cronicando

Encerrou anteontem uma das melhores campanhas de temporada já vistas de uma equipe do futebol brasileiro. Que eu não sou Rubro-Negro, não sou. Que o Flamengo fez história, fez. Veio Supercopa, Taça Guanabara, Campeonato Carioca, Libertadores da América, Campeonato brasileiro, Derby e Challenger Cup(Que valeu a vaga na Intercontinental, ficando como vice). Mas isto aqui não é sobre futebol. Aliás, nunca é.

Entre as conquistas, se repararem bem, está a Copa Libertadores da América. Sim, Libertadores da América.

O nome se dá em homenagem a políticos e militares que se dispuseram a processos longos, ousados, armados, visionários e revolucionários para a libertação deste “subcontinente” das amarras colonialistas interessadas não no desenvolvimento, mas na exploração econômico-geográfica das nações da América de baixo. Heróis que lutaram contra a convicção de superioridade que nações distantes tinham/têm e que decidiram que podiam dividir o mundo em dois(tratado de tordesilhas) e que a vida destes outros povos de cá podia ser organizada sem consultá-los, pois ainda “não estão prontos para si mesmos”.

Em “As veias abertas da América Latina”, Galeano não só não ignora como faz do livro a própria  razão de ser, que é denunciar para poucos que a Montanha de Prata de Potosí enriqueceu desde a Europa Ocidental até a China, sendo possível, segundo ele, considerando a exploração, “construir uma ponte de prata que vai do pico de Cerro Rico na Colômbia até a porta do palácio Real em Madrid”. O grande problema é que, lá como cá, o fluxo dessa ponte é apenas de ida.

O ouro de Minas Gerais, o cobre do norte do Chile, a cana-de-açúcar do nordeste brasileiro, a borracha da Amazônia, a lã do Uruguai, etc. e tal, e agora, de novo, o petróleo da Venezuela. Nada disso alimentou um desenvolvimento sustentável no tempo para a região, mas os exploradores saíram de mão grande daqui.

A única coisa que ficou foi a morte em grande escala de mão de obra forçada, o subdesenvolvimento e a ideia de que o futuro é um projeto concedido, trazido por porta-aviões, caças e destróieres ancorados no Caribe, e não uma elaboração própria de seu povo.

Talvez seja isso. Talvez a Copa Libertadores da América seja apenas uma lembrança vã do que poderíamos ser. Talvez tenham razão. Talvez a América Latina continue esperando estar pronta para si mesma. Desde 1494.


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Sobre o autor
Saulo Oliveira
É quitundense por sorte, escreve crônicas por interesse no cotidiano e mantém em dia seu desinteresse pelo rotineiro. Toca violino, flerta com as artes e alicia palavras para agregar ao precário vocabulário.
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