Terça-Feira, 10 de Março de 2026

Artista alagoano faz sucesso com miniaturas que retratam a periferia

Nascido em Carneiros, no Sertão de AL, Marcelino Nenê vive na capital paulista e se dedica a contar histórias com sua arte


Por Por Gazetaweb
Publicada em 31/03/2023 às 16:54


Marcelino Nenê tem 28 anos e se mudou para SP aos 14

Quando Marcelino desembarcou em São Paulo pela primeira vez, aos 14 anos, estranhou não ver o horizonte em sua amplitude, como acontecia ao contemplar a paisagem sertaneja, em Carneiros, cidadezinha do interior de Alagoas, onde nasceu e cresceu. Em vez do barro e da relva, a fumaça e os arranha-céus. Em vez dos animais, carros e mais carros. Atento a tudo, o menino gravou na memória o que viu, sentiu e pensou, até o momento exato em que percebeu que foi naquele instante que sua vida mudou para sempre.

Em Carneiros, ele costumava revirar os entulhos em busca de materiais que pudessem ser transformados em brinquedos, usava barro, água e cacos de telhas para construir a própria cidade, inspirada naquela estética tão árida quanto bela do lugarejo. Hoje, conhecido como Nenê, o artista que cria obras constituídas por casas e elementos das favelas em formato de miniatura, vê que começou no Sertão de Alagoas essa paixão por contar a própria história e a dos seus.

Com o projeto “Quebradinha”, Marcelino Nenê vem conquistando as redes sociais, onde já acumula 215 mil seguidores. Mas não só isso: o mercado da arte está de olho nele. Museus querem suas peças e a Bienal de São Paulo já indicou seu trabalho. O garoto sertanejo que saiu de Alagoas levando esperança na bagagem, hoje quer conquistar o mundo com sua mania de lembrar das coisas.

‘Eu e minha mãe viemos em um ônibus clandestino, não tínhamos grana. Era tudo muito novo, muito lúdico para um garoto de 14 anos. Só o sol era igual, até a água era diferente”, relembra Marcelino sobre a chegada na megalópole paulista. “Na época, Carneiros tinha uns 8 mil habitantes, enquanto o bairro em que eu vim morar tinha 2 milhões de pessoas”, enfatiza o artista, ressaltando o impacto da mudança.

E POR FALAR EM MUDANÇA

O projeto Quebradinha começa justamente pelo medo de esquecer, de perder na vasta cidade a essência de quem se é. Marcelino Nenê defende que ao transformar em obras de arte os traços típicos da quebrada — como é possível chamar a vizinhança nas favelas — com seus comércios peculiares e construções inventivas, consegue eternizar lugares, afetos e histórias.

“Quebradinha nasce desse ser político, que fala de política, independente da plataforma. Antes do Quebradinha havia o meu trabalho como fotógrafo, com drone, sempre atuando na comunidade, com as pessoas que estão nesse contexto de pobreza de dinheiro”, conta.

Ele revela que o seu “eu artístico” nasceu no Sertão, enquanto o “eu político” surgiu nas oficinas de hip hop, em Sampa.

“Meu eu político tende a pensar nessas questões pertinentes da sociedade, periféricas, pobres, faveladas. Ele nasce nessas oficinas. O meu eu artístico nasceu da fome, do não ter. Do ter que pegar essas coisas do lixo para encontrar com o que brincar, fazer os próprios brinquedos”, diz Marcelino.

O projeto do artista alagoano vem ganhando o mundo. A proporção, ele diz, o faz querer ir ainda mais longe e, do menino que fazia brinquedos com lixo, fazer história com arte.


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